hey, you, espero que esteja bem.
semana passada uma conhecida me me disse que está bugando de tanto ouvir falar de IA. eu e (acho) você também. mas o problema é que a IA parou de ser assunto de tecnologia e virou assunto sobre presente e futuro. sobre o que a gente quer, quem a gente admira e o que a gente aceita entregar em troca de um pouco de atenção.
essa edição é sobre isso (e aqui vai aquela tentativa de ligar os pontos sobre a qual falei edições atrás).
duas notícias que, olhadas juntas, contam a mesma história: estamos achando lindo pagar pra sermos vigiados.
bora lá…
virginIA
essa aqui me pegou em cheio.
o que está acontecendo?
a tal da Virginia Fonseca, de apenas 27 anos, uma mega influenciadora, lançou uma IA treinada na própria personalidade. funciona por assinatura, numa plataforma chamada Versio, e custa singelos 29,90 a 89,90 lulas, por mês.
ok, mas o que caspita faz essa IA? fala como ela, escreve como ela, dá conselho de moda e beleza e fica disponível 24 horas por dia.
(uau, depois de escrever acho que preciso assinar esse troço - CONTÉM SARCASMO)
a justificativa oficial é que ela recebe mensagens demais e não consegue responder todo mundo.
traduzindo: você não vai falar com a Virginia. você vai pagar pra falar com uma imitação da Virginia, que aprendeu a copiar o jeito dela de dizer “amô”. e tem gente na fila.
quem assistiu àquele episódio de Black Mirror com a Miley Cyrus já deve ter sentido um certo incômodo. em “Rachel, Jack e Ashley Too”, a popstar tem a mente copiada pra virar um bonequinho que continua falando, cantando e rendendo dinheiro enquanto a artista de verdade está fora do jogo. a Virginia fez a mesma coisa, só que em vida e faturando a mensalidade. a diferença entre ficção distópica e modelo de negócio, hoje, é o precinho.
por que isso importa?
aqui a coisa fica muito desconfortável (pra mim, ok?).
o produto em si é o de menos. ela sabe jogar o jogo, ainda que você não goste. a pergunta de verdade é: por que uma sociedade inteira resolve cultuar essas figuras a ponto de pagar pra conversar com o clone delas, muitas vezes comprometendo o próprio orçamento?
pensa no cardápio brazuca. influencer fazendo propaganda de jogo do tigrinho pra uma plateia que não tem o que apostar. ostentação de jatinho e bolsa de grife virando conteúdo. Porsche sendo marretado quase todo dia por algum influencer alcoolizado. a Vih Tube fazendo reality show com os próprios empregados, transformando relação de trabalho em entretenimento.
é, na maior parte das vezes, conteúdo lixo. e mesmo assim ele gera luxo, ao menos para quem produz o lixo.
o que as pessoas ganham girando essa roda? o que elas compram, exatamente?
minha aposta é que elas compram desejo. e desejo é o único produto que vende bem numa sociedade que não parece ter esperança. quando o futuro concreto (casa, estabilidade, subir na vida) parece fora de alcance, sobra viver o luxo pelos olhos de quem “conseguiu”. o influencer não vende bolsa, vende a fantasia de que a sua vida também poderia ser assim. e a IA da Virginia é o passo seguinte: se eu não posso ter a vida dela, pelo menos posso ter a atenção dela, mesmo que seja uma atenção roteirizada e cobrada.
(já imaginou a quantidade de dados e informaçòes que uma IA dessa trata? você acredita que isso não será analisado, buscando novos produtinhos para lançamento?)
o Brasil não inventou isso, mas vive uma versão (muito) mais aguda. desigualdade brutal, celular na mão de todo mundo e uma cultura que transformou “ficar rico rápido” na última utopia. é o caldo perfeito. antigamente a molecada queria ser médico ou jogador de futebol. hoje querem ser influencers.
e aí vem a provocação que sei que vai incomodar: não é hora de colocar um freio?
a China colocou. nas campanhas que eles chamam de “qinglang” (algo como “limpar e clarear”), o governo restringiu a ostentação de riqueza nas redes, apertou a cultura de fãs e limitou certos conteúdos de celebridade. há quem vá torcer o narizinho falando que lá não existe democracia, mas a pergunta de fundo continua valendo: uma sociedade pode decidir que certo tipo de conteúdo faz mal ao coletivo? ou a gente aceita que o algoritmo, feito pra estimular o desejo, decida isso por nós, sem nunca ter passado por voto? coletivo não pode, mas uma empresa pode?
para se aprofundar
esse negócio todo aí é chamado de “relação parassocial” (fui pesquisar para aprender rs): o vínculo de mão única que a gente cria com figuras públicas, sentindo intimidade com quem nunca vai saber que a gente existe.
a IA da Virginia pega esse laço, que já era imaginário, e cobra por ele. vale cruzar com o Byung-Chul Han e a ideia de que a gente não é mais explorado de fora, a gente se explora por dentro, em nome de curtida e de pertencimento. a máquina do desejo não precisa mais de patrão.
por apenas R$ 89,90 a Virginia vai te contar todos os segredos do sucesso, ainda que sejam algumas odds.
hot surveillance summer (pega essa…)
o que está acontecendo?
outra mega celebridade da internet, Kylie Jenner, lá da família famosona do reality, virou o rosto dos novos óculos inteligentes da Meta, o Meta Starfire edição Kylie. pela bagatela de US$ 399, o primeiro da linha com marca de celebridade. e nada mais apropriado para quem vive de imagem: os óculos têm câmera, seis microfones e uma IA que fala com a voz da própria Kylie (ela emprestou a voz ao produto - mano, isso é muito bizarro - e esse ca….e de travessão não é IA rs).
agora, vai procurar o anúncio na internet. a gente vê o dia dela pelas lentes dos óculos, enquanto ela dá ordens pra equipe e testa hidratante.
o apelido “hot surveillance summer” viralizou porque influenciadores começaram a postar selfie com os óculos, transformando uma câmera pregada no rosto, que até ontem era esquisita, em item de moda.
por que isso importa?
porque a moda está fazendo o trabalho que o Zuckaichinhos sozinho não conseguiu: deixar a vigilância desejável.
(a moda agindo para normalizar situações não é de hoje, vem de muito. casos como "torches of freedom", normalizando o cigarro nas mãos de mulheres, ainda em 1929, e o bronzeado, que foi de marca de pobreza a signo de status, pelas mãos de Coco Chanel, são exemplos).
o ponto não é a Kylie, é o que ela normaliza. quando um dos rostos mais conhecidos do planeta coloca uma câmera no rosto e chama de glamour, ela não está vendendo um óculos. está vendendo a ideia de que ser filmado o tempo todo (e filmar todo mundo em volta, sem ninguém pedir licença) é legal. e isso num momento em que a Wired revelou que a Meta chegou a instalar um reconhecimento facial batizado de “NameTag” em mais de 50 milhões de aparelhos, capaz de identificar o nome de qualquer pessoa por perto, antes de recuar por causa da repercussão.
repara na ligação com a notícia anteior. lá, as pessoas pagam pra ter a atenção fabricada de um ídolo (taquepa**u). aqui, o ídolo convence as pessoas a doar a atenção, e a dos estranhos na calçada, pra máquina. nos dois casos o desejo é a isca. a Big Tech descobriu que não precisa obrigar ninguém a aceitar a vigilância. basta fazer alguém que a gente admira usar primeiro.
para se aprofundar
vale pensar na diferença entre vigilância imposta e vigilância desejada.
o medo antigo era o do Estado te obrigando a ser visto (Orwell, 1984).
o modelo de agora é mais esperto: ele te faz querer a câmera, pagar por ela e postar selfie com ela. e no momento em que o rosto do estranho na rua também é capturado, o consentimento vira piada. você aceitou por todo mundo que passou na sua frente.
a pergunta que vem aí, e que ninguém quer encarar: de quem é o rosto capturado sem permissão, e quem responde por ele?
é isso. a gente saiu de uma influencer que empacotou a própria personalidade e chegou nos óculos que viraram tendência de verão. a mesma lógica: primeiro te vendem o desejo, depois te vendem a vigilância, e no fim guardam tudo o que você deixou pelo caminho.
fica a dica: quando alguma coisa é de graça (ou custa só R$ 89,90), o produto provavelmente é você (essa é velha, Ruy). a sua atenção, o seu rosto, a sua memória.
pensa nisso e me conta o que você acha.
fui. beijo!
Obs: sim, hoje são só duas, já que eu sempre tenho muito a dizer sobre a Virgínia.




Me fez pensar que, se um dia o anonimato (sobre Nametag) será algo escasso, será também um novo produto pelo qual eu deverei pagar para obter?
Assim como pagamos para não ver anúncios.
Parabéns pela reflexão .