( hoje decidi não usar as imagens que vinha usando. apesar de estarem padronizadas, estavam muito pasteurizadas demais pela IA. não curti! então ao menos por enquanto, volto às imagens do Unsplash e giphy.)
Trump e UE recuam…por que será?
talvez você nunca tenha ouvido falar dele, mas uma das grandes questões do tempo em que estamos vivendo atende pelo nome de “dilema de collingridge”.
vou explicar…
em 1980, David Collingridge descreveu o seguinte: quando uma tecnologia é nova, você não sabe quais serão seus danos e alcance, e então não sabe como regular. quando você descobre o alcance e os danos, a tecnologia já está tão entranhada na sociedade que mudar é praticamente impossível.
à época, David estava falando de energia nuclear. mas “seu dilema” tem sido uma das tônicas em relaçào a inúmeros assuntos nos últimos anos, de proteçào de dados a neurodireitos, passando por quem? claro, a IA.
na quinta-feira passada, em uma postura distinta dos discursos anteriores, a Casa Branca estava prestes a assinar uma executive order sobre IA. essa ordem obrigaria as empresas de IA a classificar potencial de risco e informar antes ao governo americano (tudo começou com o Mythos, da Anthropic).
aí, na véspera, Trump cancelou.
motivo oficial: não precisava mais. já tinha chegado a “acordos” com Google, Microsoft e xAI. acordos. entre o governo americano e as empresas que ele deveria regular. sem audiências, sem processo público, sem transparência.
corta pra União Europeia, reconhecida bastiã dos direitos humanos nas últimas décadas, no difícil dilema dos limites da inovação. a UE que subiu o sarrafo da proteção de dados com seu GDPR. a UE que correu para regular a inteligência artificial com seu AI Act.
pois é, Collingridge avisou…
em Bruxelas, o Parlamento Europeu votou para adiar em 16 meses a implementação das regras para sistemas de IA de alto risco do EU AI Act. o prazo era agosto de 2026. agora vai para dezembro de 2027. os motivos foram “competitividade econômica” e “não queremos afastar investimento.”
a mesma UE que se orgulhava de ser o modelo global de regulação responsável, agora opta por puxar o freio de mão (jovens sabem o que é isso?).
e o dilema de collingridge? está acontecendo em tempo real, na sua frente. ninguém quis regular quando a IA era pequena. agora que os modelos movem mercados, influenciam eleições e redesenham empregos, os governos olham para o lado e dizem: “vamos dar mais um tempinho", quando na verdade querem dizer “lascou, não sabemos o que fazer”.
não se pode descartar, também, o custo geopolítico: se eu regulo e travo, e a China?
enquanto Trump e UE recuam, Connecticut vai em outra direção
enquanto mister peruca recuava e Bruxelas adiava, um estado americano de 3,6 milhões de habitantes decidiu ser o adulto do rolê.
em 1º de maio de 2026, Connecticut (aposto que a maioria das pessoas sequer sabe onde fica) assinou o SB5, uma lei de IA, aprovada de forma bipartidária (o que é louvável), que cobre quatro áreas que nenhuma lei federal americana ainda tocou com a devida seriedade.
vamos dar uma sapeada em que áreas são essas.
primeiro: companion bots.
a lei define “interactive artificial intelligence” como qualquer modelo de linguagem capaz de interação em linguagem natural (o que é extremamente amplo). se esse modelo for capaz de incentivar automutilação, gerar interações românticas ou eróticas, validar crenças acima de fatos, ou otimizar engajamento, ele não pode ser direcionado a menores de 18 anos. safe harbor (nome dado a quem adotou salvaguardas) existe se o provedor “razoavelmente determinou” que o usuário era adulto. na prática, isso é uma proibição de fato para chatbots que não implementarem verificação de idade séria, uma dor que as empresas também estão sentido por aqui com o ECA digital.
segundo: transparência em mídia sintética.
até outubro de 2027, desenvolvedores de IA precisam garantir que conteúdo gerado por IA seja marcável e detectável. deepfakes com fins eleitorais, sexuais ou de fraude já são proibidos na largada
terceiro: processos automatizados de decisão de emprego (vixeeeeeeee. tem gupy de olho por aí).
se uma empresa usar IA para tomar ou influenciar decisões de contratação, promoção ou demissão, ela precisa notificar o trabalhador antes de qualquer decisão adversa e submeter o sistema a testes anti-viés. o Attorney General de Connecticut pode multar.
quarto (esse é o meu favorito).
proteção a whistleblowers de laboratórios de IA de fronteira. se um funcionário da OpenAI, Anthropic, Google DeepMind ou similar descobrir um risco catastrófico e quiser denunciar, Connecticut protege esse trabalhador por lei.
(vale lembrar que um dos maiores escândalos envolvendo manipulaçào algorítmica, que envolvia Facebook e Cambridge Analytica, só foi adiante pelo surgimento de uma whistleblower, Brittany Kaiser. está tudo retratado na série da Netflix, Privacidade Hackeada).
pense nisso: um estado americano criou proteção formal para quem quiser dizer “meu empregador está construindo algo perigoso sem tomar os cuidados que deveria.”
e no Brasil? o PL 2338/2023 ainda espera votação no Congresso. já são três anos de debate, emendas, consultas públicas. enquanto isso, um tal de Connecticut sai do zero à lei em menos de um ano.
IA e direitos autorais no jornalismo: um bom acordo (ou não?)
pensa num assunto mega fresquinho…
na segunda-feira (25/05/2026), a OpenAI anunciou o primeiro acordo comercial com empresas brasileiras de mídia para fornecer conteúdo jornalístico ao ecossistema do ChatGPT, envolvendo a Folha de S.Paulo e o UOL.
a parceria encerra a ação judicial movida pela Folha em 2025 (da qual já falamos aqui na news), na qual o jornal pedia o fim da coleta e do uso, sem autorização e sem pagamento, de conteúdos publicados em seu site. pelo acordo, usuários do ChatGPT poderão acessar resumos baseados em reportagens dos dois veículos, com atribuição e links para as fontes originais, e os grupos passam a ter acesso a ferramentas da OpenAI.
a OpenAI mantém acordos do tipo desde 2023 com gigantes como Financial Times, Le Monde, Time e Axel Springer.
à primeira vista, é uma boa notícia (e em parte é mesmo). um problema jurídico a menos: a remuneração de quem produz conteúdo de qualidade deixa de ser pirataria silenciosa.
para o debate sobre direitos autorais na era da IA, é um avanço concreto.
mas há um ponto aí nessa história para além da página 2, e ele fica mais escondido do que deveria.
pense: quem foi à mesa de negociação?
grupo Folha/UOL. um gigante brasileiro do setor. tão gigante quanto os já citados Financial Times, Le Monde, Time e Axel Springer.
são grupos que conseguem processar uma big tech, sustentar a disputa e sair dela com um acordo. daí surge a questão: e os demais veículos, a imprensa independente, os blogs especializados, a mídia regional, as vozes que justamente contrapõem as reportagens e os editoriais das gigantes?
essas não têm poder de barganha para licenciar nada.
e é daí que nasce o risco, o risco de que a IA passe a aprender a “ver o mundo” pelas lentes de quem pôde cobrar para entrar. o contraditório, que é o oxigênio dos regimes democráticos, pode virar pó. não porque alguém censurou: simplesmente porque nào havia poder de barganha.
o perigo não é o acordo, é a assimetria. quando a resposta “confiável” do chatbot passa a ser a versão de poucos, some o atrito saudável, aquele mesmo que te faz pensar.
deus me livre, eu não queria ser legislador nos tempos atuais…
Innovation Week (evento maravilhoso)
galera, vou fazer um jabá aqui para ajudar os alunos do Lab de Inovação da FDSBC, que estão erguendo um dos eventos mais legais que já vi (em termos de programaçào, está incrível).
vai rolar de 8 a 11 de junho, nos três períodos. tudo de graça!!!
para mais informações, fique de olho nas redes do lab!
para inscrições (gratuitas), basta clicar aqui.
eu não perderia por nada, e acho que você (seu chefe, colegas, mãe, pai, papagaio, cachorro caramelo, etc) não deve perder.
é isso, fui…beijos!





